O Primado da Ideia
in
Semanário Económico, nº 867, 22 de Agosto de 2003
Num mundo como o actual, em que o Primado da Ideia é cada vez mais evidente, é
necessário criar condições para que estas possam surgir, instalar-se e vencer.
Em
termos de inovação, os últimos 10 anos foram perfeitamente “arrasadores”. Nunca,
em qualquer momento da sua história a Humanidade sofreu uma tal evolução. Desde
o fim da Guerra do Golfo até hoje, muita coisa mudou. Mudou a Tecnologia,
mudaram as Organizações, mudaram os Processos de trabalho, mudaram as
Estratégias de Negócio das empresas (impôs-se o pensar global) e mudou a
Sociedade. Hoje estamos todos muito mais conscientes e alertas para os problemas
e preocupações dos outros, graças fundamentalmente à Internet, mas também à
evolução nos meios tradicionais de comunicação.
Actualmente, apesar de ainda não se poder falar da existência de uma verdadeira
Comunidade Global, estamos muito mais próximo da sua existência plena do que há
10 anos atrás. No entanto, a integração económica desta Comunidade está muito
mais avançada. A Globalização é já uma certeza afirmada. A concorrência de
produtos provenientes de várias partes do Mundo é uma constante em quase todos
os mercados. Podemos dizer que, para quase todos os segmentos de procura,
existem quantidades significativas de produtos substitutos, a preços
completamente díspares.
Ora,
esta situação, nova em termos globais, mas já experimentada em mercados menos
“globais”, como o enorme mercado interno dos EUA, teve e tem como resultado a
busca permanente da diferenciação, da optimização de custos, da inovação, enfim
da procura sistemática de novas formas de criar e satisfazer as necessidades de
clientes e potenciais clientes. Este “alastrar” das condições económicas de um
país como o EUA para o resto do Mundo, começando pela criação da Comunidade
Europeia (a que se seguiram outras como o MERCOSUL, ASEAN, etc.), tem feito
desaparecer mercados protegidos e com poucas oportunidades de criação e
sustentação de novas empresas, gerando enormes oportunidades de crescimento para
empresas que assumam completamente a sua supra-nacionalidade. Por outro lado, a
globalização criará grandes dificuldades às “empresas de bairro”, da mesma forma
que a “invasão” dos hipermercados fez quase desaparecer as antigas mercearias.
Em
termos globais, Portugal é uma economia “inexistente”, isto é, o seu impacto no
comércio mundial não apresenta uma expressão significativa. No entanto, o Globo
sempre foi uma “economia” presente na sua história. Através dos Descobrimentos,
Portugal deu de facto início à Globalização. Consolidou e inovou tecnologias
para conseguir realizar as viagens de descobrimento e, através destas, trouxe
novos produtos a mercados europeus tradicionais e estagnados. Conseguiu, assim,
efectuar a primeira grande revolução nos mercados, a primeira globalização.
Como
está bem presente na nossa História, a inovação, ou seja a exploração de ideias
inovadoras, deu origem a empreendimentos muitas vezes arriscados e mal
sucedidos, mas também a outros que conseguiram compensar todos os investimentos
efectuados e riscos corridos. Curiosamente, à medida que o tempo foi passando,
Portugal deixou de ser um País assumidor de riscos para se tornar quase
completamente avesso ao risco. Actualmente a situação é confrangedora, ainda que
em mudança positiva onde, em presença de um mercado global que ajudaram as
construir, as principais instituições portuguesas (financeiras) mostram-se muito
receosas do risco, especialmente do risco originado por novas ideias que lhes
batem à porta. É corrente apostarem só em empresas bem “consolidadas e sólidas”,
deixando de fora todas as ideias empresariais em que o risco do investimento
seja um pouco maior. Por outro lado, são ainda mais avessas a investir em ideias
(produtos e serviços) intangíveis do que tangíveis (neste caso, sempre recuperam
os activos fixos).
Com este
pano de fundo, as ideias empresariais em Portugal foram sendo cada vez menos
afoitas e em menor número. Com o “boom” da Internet ainda pareceu que este
estado de coisas se tivesse alterado ligeiramente, mas não, ao soar das
primeiras badaladas do “crash” bolsista logo se fecharam todas as portas. De tal
forma que é necessária a intervenção do próprio Presidente da República(!), para
que aja um novo entreabrir de algumas destas portas.
Mas,
quer queiramos quer não, estamos hoje num Mundo em constante ebulição, cada vez
mais exigente ao nível da qualidade e extremamente carente de novas ideias.
Ideias que permitam criar novos mercados, novos empregos, nova riqueza.
Num
mundo como o actual, em que o Primado da Ideia é cada vez mais evidente, é
necessário criar condições para que estas possam surgir, instalar-se e vencer.
Mas, atenção, não é só preciso que estas condições sejam criadas a um nível
macro-económico, em que a contribuição e organização (legislação) do Estado é
fundamental. Também ao nível das próprias empresas privadas é fundamental a
criação de condições para que se recolham, analisem e aproveitem novas ideias.
Quantas,
·
Promovem concursos de apresentação de
ideias?
·
Têm “caixas de sugestões” espalhadas pelas suas várias
organizações?
·
Efectuam uma análise sistemática das novas ideias?
·
Premeiam, devidamente, as novas ideias?
·
Reservam orçamento, ou procuram activamente financiamento para a
implementação de novas ideias?
·
Têm montado um processo de transformação de ideias em projectos e
projectos em empresas?
Pois, na
minha vida profissional não tenho encontrado muitas empresas em que a procura
incessante e quase doentia de novas ideias seja um objectivo estratégico. Está
de acordo?
E, já
agora, voltando um pouco atrás, porque pensa que os EUA são os líderes mundiais
em muitos sectores económicos? Na minha opinião, porque procuram incessantemente
e de forma extremamente vigorosa (e nada doentia!) novas ideias materializáveis
em negócio. Todos os dias têm de ser criados novos conceitos, novas formas de
satisfazer as necessidades dos consumidores, que de um forma retro-alimentadora,
permitam gerar maior satisfação nas empresas, gerando mais proveitos, empregados
mais motivados, accionistas mais contentes e abastados, mais impostos para o
Estado, etc.
É neste
fluxo incessante de transformação de ideias em projectos e de projectos em
empresas rentáveis que se baseia o actual bem estar de uma parte significativa
da Humanidade.
É através da inovação, renovação, optimização que se consegue competir num
mercado global. Mas, se a geração, captação, análise, financiamento e
implementação de novas ideias não for um objectivo estratégico de qualquer
empresa, é pouco provável que o seu sucesso possa ser assegurado por muito
tempo.
Empresas
que construíram um ambiente operacional em que a criatividade é premiada, em que
a inovação é uma estratégia e que desencorajam a aderência a modelos
hierárquicos rígidos, encontram-se muito melhor preparadas para responder aos
enormes desafios que têm pela frente.
Em
Portugal, a vida de muitas empresas continua na base de subsídios, ou da “fuga”
a impostos, gerando-se a criação de mercados distorcidos, onde os bons pagam
duplamente pelos maus. Primeiro porque cumprem com o pagamento das suas dívidas
a tempo e horas e depois porque com estes pagamentos “financiam” os maus, seus
concorrentes.
Com este
(mau...) estado de coisas, a maior parte das “boas ideias” surgem neste âmbito
extremamente negativo de riqueza egoísta. Nestas condições de mercado, as boas
ideias, geradoras de riqueza partilhada não conseguem emergir nem sobreviver por
muito tempo. Têm de procurar outros ares, emigram, vão gerar riqueza para outro
lado.
Neste
mundo do Primado da Ideia, esta tem de ser promovida e acarinhada devida e
sistematicamente, pois não é ela a grande riqueza de qualquer Nação? Pois não
foi ela a grande riqueza deste País?
Infelizmente ainda não tão significativa como todos desejaríamos. Mas maior do
que há 50 anos atrás, não?
|