Outsourcing Estratégico e Desempenho Organizacional
in
Semanário Económico, nº 863, 25 de Julho de 2003
A competitividade de qualquer empresa só pode ser conseguida através da
recorrência ao outsourcing.
Nas suas
variadas formas o Outsourcing está entre nós há vários anos, representando um
sector económico que, globalmente, muitos estimam valer entre 100 e 150 milhões
de euros apresentando uma taxa de crescimento anual entre 10 e 20%.
Se bem
que a maior notoriedade do outsourcing provenha da sua implementação ao nível
dos sistemas de informação, a recorrência a contratos desta natureza vai muito
para além desta área, entrando em áreas contabilísticas, financeiras, recursos
humanos, logísticas, etc. Toma, nestes casos, a designação de BPO – Business
Process Outsourcing.
Por
outro lado, existe também o conceito de ASP – Application Service Provider, que
propõe a oferta de um produto/serviço informático comum, mas partilhado por
todas as organizações suas clientes/utilizadoras. O modelo ASP propõe o
fornecimento de melhores produtos/serviços informáticos através da exploração de
economias de escala. Estas permitem reduzir custos de utilização e de
acessibilidade a modernas tecnologias e às competências que as suportam. Devido
a estas características, é um modelo com potencial para atrair “start-ups” e
pequenas empresas que não possam investir muito, mas que ainda assim necessitem
de modernas e poderosas ferramentas informáticas.
Não
sendo, pois, o outsourcing um conceito novo, continua a ser fundamental entender
a sua importância e a forma como pode ser crítico para a renovação e
sobrevivência de qualquer organização. Neste mundo de complexidade e exigência
crescentes, onde a especialização assume um extraordinário relevo, a recorrência
a qualquer uma das variantes de outsourcing pode garantir a renovação e
sobrevivência futura de qualquer organização.
É,
portanto, muito normal que os benefícios provenientes do outsourcing estejam bem
definidos e documentados. Reduções de custos, focagem no “core business”, melhor
qualidade de serviço, poupança de mão-de-obra e acesso a recursos
especializados, são os mais constatados benefícios. Mas estes benefícios
resultam de um atitude “passiva” na decisão de outsourcing. Outra abordagem,
muito mais importante e com cada vez mais aderentes é a atitude “activa”, isto
é, a procura objectiva de um parceiro que seja responsável pelo outsourcing de
uma área da organização, mas que traga consigo know-how fundamental para a
conquista de vantagens competitivas. Hoje, o outsourcing já não é só encarado
como uma via para resolver problemas de custos e eficiência, é também muito
valorizado o seu enorme potencial para injectar novas ideias, conceitos e
estratégias na organização. As empresas começam, assim, a efectuar a passagem do
Outsourcing Operacional para o Outsourcing Estratégico.
Em
estudos recentes, veio provar-se que um Outsourcing Operacional pode conduzir a
poupanças de cerca de 20%, mantendo-se inalterado o nível de serviço. Mas, no
caso do Outsourcing Estratégico verificou-se que os benefícios podem ser bem
mais elevados, até 50%, com melhorias adicionais ao nível da quota de mercado e
da redução de riscos. Esta constatação tem levado à construção e aperfeiçoamento
de um novo modelo de colaboração entre Cliente e Fornecedor, que agora passam a
ser Parceiros Comprometidos em negócios conjuntos. O outsourcing é agora o
factor fundamental da criação de vantagens competitivas para a organização
cliente. Num Outsourcing Estratégico está-se muito perto da constituição de uma
Joint-Venture, tal é o grau de integração possível entre os parceiros.
No
entanto, raras são as empresas que procuram efectuar directamente um Outsourcing
Estratégico. Este não é um objectivo inicial, mas sim o culminar da evolução de
uma relação de parceria iniciada com o Outsourcing Operacional e que, pelos
resultados positivos atingidos se transforma num Outsourcing Estratégico. Para
se saber se o outsourcing efectuado está a obter resultados que permitam fazer
evoluir o nível de colaboração para o Outsourcing Estratégico é preciso medir o
ROI
da parceria o mais rigorosamente possível e durante as várias fases do tempo de
vida do contrato. Esta medição essencial, não é linear nem fácil, pois a
utilização de critérios puramente financeiros não é suficiente para medir a
evolução na desempenho da parceria. Mais uma vez, estamos perante uma situação
em que é exigido um sistema de medição que possa fornecer indicadores precisos
ao nível estratégico. Para que a evolução do nível de colaboração entre as
empresas “contratante” e “contratada” possa efectuar-se de forma segura e
contínua, propomos a implementação de um Sistema de Medição do Desempenho do
Outsourcing do tipo Balanced Scorecard.
Como
sabemos, para além da medição dos aspectos financeiros, o modelo Balanced
Scorecard preocupa-se com a medição de aspectos internos de excelência
operacional, aspectos externos de optimização da relação com clientes e aspectos
de aprendizagem e crescimento organizacional. Ora, é este tipo de medição que é
necessária para que uma relação de Outsourcing possa evoluir da vertente
meramente Operacional para uma vertente Estratégica de muito maior valor
acrescentado. Os sistemas de contratação tradicionais com base em SLAs
não são suficientes para determinar a qualidade da parceria, pois só nos
apresentam indicadores de custos e eficiência. O estabelecimento de um
Outsourcing Estratégico deve ser apoiado por mais e melhor informação, e esta só
pode ser disponibilizada se for implementado um Sistema de Medição do
Desempenho, auditado regularmente por entidades externas à execução do contrato.
Mas,
agora pode perguntar-se. Deve a empresa que procura efectuar um qualquer tipo de
outsourcing, preocupar-se em implementar um Sistema de Medição do Desempenho
logo a partir do início do contrato? E a resposta é ... SIM!, o mais cedo
possível. Deve, inclusive, procurar negociar a inclusão de um sistema deste
género logo no momento de definição do contrato de outsourcing. Se este sistema
não estiver em funcionamento ao fim dos primeiros 12 meses de execução do
contrato, será muito difícil saber se a relação de colaboração deve ou não
evoluir para um nível estratégico. Como um contrato de outsourcing vincula ambas
as partes numa relação de parceria de médio e longo prazos (entre 3 e 10 anos),
é bom que a empresa contratante tenha muito mais do que uma mera percepção da
efectiva contribuição do seu parceiro para a criação de vantagens competitivas.
Um bom contrato de outsourcing não pode deixar de conter a implementação de um
bom Sistema de Medição do Desempenho Organizacional.
O
domínio da complexidade só pode ser conseguido através da especialização. A
competitividade de qualquer empresa só pode ser conseguida através da
recorrência ao outsourcing. Mas este não pode ser um mera forma de reduzir
custos e melhorar a eficiência, tem de ser um factor gerador de proveitos. Para
que isto seja possível, tem de conseguir-se medir com a melhor precisão possível
o seu desempenho. As suas mais e menos valias têm de estar perfeitamente
visíveis, pois só assim, podem ser tomadas as decisões correctivas mais
adequadas.
Portugal, não é hoje uma país tão competitivo como no passado. A parceria não
está no “sangue” nem na mente da maior parte dos nossos empresários. O sector
público estatal está completamente desequilibrado, com organismos ao nível dos
melhores do mundo na utilização de tecnologias informáticas e outros na sua
“pré-história”. Neste sector “abomina-se” o termo Outsourcing e ainda mais o
termo Desempenho, pois ambos são os arautos do fim da “dolce vita”. Mas, poderá
o país desenvolver-se e voltar a ser competitivo sem que as nossas organizações
recorram a qualquer uma das formas de outsourcing?
Se, como
País, já “abdicamos” substancialmente da nossa “independência” quando entramos
na Comunidade Europeia, e com isso obtivemos benefícios que estão à vista de
todos, não será que os senhores empresários e gestores públicos não deverão
“abdicar” um pouco da sua independência em prol da excelência, do progresso, do
bem-estar de todos nós e, no final em prol da sua própria sobrevivência? Não
será que o trabalho em equipa (em parceria) garante melhores e mais rápidos
frutos? Não está este facto provado? É altura de mudar! Vamos colaborar muito
mais!
ROI – Return on Investment.
SLA – Service Level Aggreement.
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