Liderança e Vitória
in
Semanário Económico, nº 858, 20 de Junho de 2003
“A vitória assenta na consumação [...],num claro sistema de recompensas, na
selecção de tropas de elite e na obtenção de vantagens sobre os inimigos. ...”.
“Mestre
Sun disse: A vitória de um exército assenta nos seus corpos de elite, a sua
coragem assenta na ordem, a sua perícia assenta na configuração e na energia, a
sua vantagem assenta na confiança, a sua eficácia assenta na liderança, a sua
riqueza assenta num regresso rápido, a sua força assenta no descanso concedido
aos soldados, o seu dano assenta em batalhas sucessivas.”
E, mais
à frente, Mestre Sun refere também que, “A vitória assenta na consumação
[...],num claro sistema de recompensas, na selecção de tropas de elite e na
obtenção de vantagens sobre os inimigos. ...”.
Estes
dois parágrafos, extraídos do capítulo 5 – Tropas de Elite, do livro “A Nova
Arte da Guerra” de Sun Bin,
ainda que escritos em época e contexto completamente diferentes do actual, são
perfeitamente aplicáveis aos actuais “exércitos”, as empresas. Nunca, como
agora, em que a globalização é ponto assente, em que o Mundo não vive um momento
económico particularmente feliz, e onde não existem grandes expectativas de que
esta situação se altere positivamente no curto prazo, assistimos a um aumento
enorme da concorrência em quase todos os mercados. Os produtos e serviços de
qualquer empresa encontram-se hoje em permanente risco de serem “atirados” para
fora do mercado, quer devido à substituição por produtos mais inovadores e que
melhor satisfazem o consumidor, quer devido a excelentes economias de custo
conseguidas em muitos países.
Nesta
conjuntura é, mais do que nunca, fundamental que cada empresa disponha de uma
liderança moderna e eficaz, capaz de dirigir e motivar as melhores tropas na
grande batalha da competitividade. Mas o que o que representa “ter uma liderança
moderna e eficaz”?
Quando
se fala em liderança, têm-se sempre a tendência para concentrar o discurso nos
genotipos e fenotipos dos líderes empresariais, mais ou menos carismáticos, mais
o menos autoritários, mais ou menos inteligentes (tanto intelectual, como
emocionalmente), etc. No entanto, todos sabemos que existem milhares de empresas
de sucesso que dispõem de líderes com características radicalmente distintas
(veja-se a tão falada distinção entre Bill Gates da Microsoft e Larry Ellison da
Oracle), logo o seu sucesso ou insucesso nunca pode ser imputado às
características pessoais do líder, mas sim às características da liderança, num
sentido mais lato e que passo a explicar.
Ainda
que em qualquer momento, as características pessoais de um líder possam ditar o
sucesso ou insucesso de uma empresa, um sucesso sustentado apoia-se,
essencialmente, na capacidade que esta tem de converter informação em
conhecimento, conhecimento em decisão, decisão em acção,
e acção em lucro (ou satisfação acrescida no caso de uma organização estatal).
A este processo poderíamos dar o nome de Cadeia de Valor Estendida.
É na eficiência e eficácia do funcionamento deste processo que se define a
liderança e se constrói a vitória.
Quanto
mais estruturado e fluído for este processo, mais rápidas e eficazes serão as
conversões e maior valor será acrescentado por cada conversão sucessiva. Como
podemos facilmente perceber, a parte crítica do processo prende-se com a
conversão de bens intangíveis e só mais tarde, e se for caso disso, existirá uma
conversão de bens tangíveis. Ora, no mundo actual e naquele que se pode já
perspectivar, é na componente intangível do processo que se ganham ou perdem as
“batalhas” e, tendencialmente, a “guerra”, pois estamos, cada vez mais, numa
economia de serviço e não tanto de produto (como mostram todas as estatísticas).
Durante
a Revolução Industrial existiam, normalmente, três figuras na empresa, o dono e
patrão, a fábrica e o pessoal. Neste contexto, a capacidade competitiva de
qualquer empresa assentava na eficiência do seu método de produção, e por
conseguinte na produtividade. Actualmente, já não existem só três figuras,
existem bastante mais, existem muitos e variados “stakeholders” e muitas e
variadas disciplinas, responsabilidades, autoridades, objectivos, motivações,
etc, que aumentaram muito a sua complexidade. Hoje, a competitividade é uma
variável mais crítica do que nunca e depende, essencialmente, do método de
gestão que, por sua vez, depende completamente da liderança da empresa.
Hoje, em
qualquer empresa, a eficácia e eficiência do processo de conversão ao longo da
Cadeia de Valor Estendida depende, fundamentalmente, da forma como a sua
liderança entende e dinamiza a cadeia, do seu grau de satisfação com a
informação que recebe, da sua humildade na captação de conhecimento, da sua
agilidade na tomada de decisões e, acima de tudo, dos seus métodos de trabalho e
de relacionamento interpessoal.
A mais
elevada capacidade de liderança, que se espera seja o mais importante atributo
da gestão de topo de qualquer empresa, não se esgota neste grau hierárquico. O
nível de “empowerment” promovido e sustentado em cada grau hierárquico é uma
medida impressionante da capacidade de dinamização gerada pela liderança aos
vários níveis da empresa.
Mas, uma
liderança dinâmica, aberta e flexível, não é por si só uma garantia de vitória.
Se não souber, ou não tiver capacidade para recompensar o esforço, a dedicação e
o sucesso, começará rapidamente a perder capacidades de dinamização, de
movimentação de “tropas” e por isso, de consumação da vitória.
Se, ao
nível das nossas empresas privadas já se começa a recompensar o mérito,
premiando o sucesso, o esforço e a dedicação, ao nível dos institutos e
organismos públicos esta prática esta muito longe de ser usual e corrente, quer
porque não existe a sua promoção efectiva pela gestão de topo (Governo), quer
por não existirem sistemas que permitam captar informação que meça o desempenho
organizacional e individual.
No
Capítulo 26, Os Danos dos Comandantes, Mestre Sun escreve vários pontos
fundamentais sobre liderança.
“... 2.
Se recrutam tropas indisciplinadas e as utilizam, se mantêm soldados derrotados
e os colocam de novo em combate, se presumem que têm qualificações que na
verdade lhes faltam, podem ser vencidos. 3. Se não cessam de argumentar sobre
juízos verdadeiros e falsos, nem de discutir sobre questões de estratégia, podem
ser vencidos. 4. Se as suas ordens não são cumpridas e as suas tropas não estão
unidas, podem ser vencidos. 5. Se os seus subordinados são rebeldes e as suas
tropas não colaboram com eles, podem ser vencidos. ... 19. Se não existe
espírito de grupo e os soldados não reconhecem competência aos seus comandantes
e oficiais, podem ser vencidos. ... 22. Se os comandantes detestam eu lhes
apontem os erros, podem ser vencidos. 23 Se nomeiam incompetentes, podem ser
vencidos.”
No
capítulo 22, das Notas sobre a Arte da Guerra de Sun Bin, designado de Erros na
Guerra, escreve-se que: “... o confronto temerário e sucessivos desaires por
incompetência estratégica são factores que conduzem ao desastre. Em
consequência, torna-se necessário reconhecer os erros e evitá-los, identificando
antecipadamente as condições do êxito e do fracasso, pois “quando os
guerreiros não conseguem ver a fortuna e a desgraça antes destas tomarem forma,
não sabem como se preparar””.
E
continua, “Finalmente, é necessário analisar as circunstâncias de forma
ponderada, com honestidade, determinação e flexibilidade, assumindo a
responsabilidade pelas próprias acções: “Se caminhais pela via da estagnação,
nem o céu nem a terra poderão fazer-vos florescer. Se enveredais pelo caminho da
prosperidade, nem o céu nem a terra poderão fazer-vos perecer.””
Resta-me
referir que se estima que os textos de Sun Bin acima referidos tenham sido
escritos entre os séculos V e III AC. Quantos gestores portugueses reconhecem a
validade de tanta sabedoria sobre liderança?
Bin, Sun, A Nova Arte da Guerra, Coisas de Ler, 2002
Acção é entendida como conversão de recursos humanos, materiais e financeiros,
em produtos e serviços.
Em homenagem a Michael Porter.
|