O
Impacto do ERP
in
Semanário Económico, nº 830, 6 de Dezembro de 2002
Se
estiver interessado em adquirir e implementar um Enterprise Resource Planning (ERP)
existem regras fundamentais que não deve negligenciar.
Nos últimos anos muitas empresas portuguesas, e por esse mundo
fora, passaram por uma experiência extremamente importante para a sua sobrevivência
futura, implementaram um package ERP (Enterprise Resource Planning) ou, por
outras palavras mais em desuso, um Sistema Integrado de Gestão Empresarial com
base numa solução informática criada para servir a todos e parametrizada
segundo as necessidades de cada um.
Como o
ano 2000 estava a chegar, a introdução do Euro já se perspectivava, e urgia
substituir a antiga solução aplicacional, não foi deixado tempo, nem houve
uma preocupação especial, com o alinhamento da nova solução em relação à
estratégia da organização, sua cultura e processos de negócio. Desta forma,
muitas implementações de ERPs, de elevado grau de complexidade e abrangendo
uma vasta área operacional das organizações, foram realizadas à pressa, com
equipas de trabalho pouco experientes e sem objectivos operacionais bem
definidos. Eram os dias das grandes corridas contra o tempo, contra o medo e no
final ... contra a empresa que adquiria uma “solução” cara, rígida e mal
adaptada à evolução do negócio (em muitos casos “a parametrização flexível”
tornou-se mais rígida e menos funcional que a dos antigos sistemas
desenvolvidos “in-house”). Para além disto, não houve qualquer preocupação
com a revisão e optimização de processos de negócio e com a gestão da mudança
organizacional. Eram implementações de “carregar pela boca” que todos
tinham que engolir, mesmo em “seco”.
Hoje,
muitas organizações defrontam-se com uma situação deveras complicada. Dispõem
de sistemas extremamente sofisticados, nos quais despendem mensalmente um volume
apreciável de recursos humanos e financeiros em manutenções, parametrizações
e adaptações constantes, não conseguindo ter uma medida definida dos reais
impactos na organização do continuado investimento. Será que este esforço
está a gerar vantagens competitivas, ou a criar sucessivos “botlenecks” na
organização? Ou, como poderia interrogar-se Elyahu Goldratt (ver TOC-Theory of Contraints),
“não estaremos a criar mais restrições do que a eliminá-las”?
É nítido
que continua a ver-se a implementação de um ERP como um fim em si mesmo, como
uma panaceia que resolve todos os problemas da organização, não se dedicando
o tempo e o esforço suficientes para, num primeiro momento, analisar e avaliar
as implicações estratégicas e operacionais da implementação do sistema e,
posteriormente, lançar efectivas acções de optimização de processos e de
integração organizacional, que venham, estas sim, a demonstrarem-se como
verdadeiramente geradoras de vantagens competitivas.
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A
maior parte dos projectos "chave-na-mão" representam um enorme risco
para a organização. |
Se
estiver a pensar em adquirir e implementar um ERP, existem algumas regras
fundamentais que não deve negligenciar em caso algum, com risco de poder vir a
arrepender-se mais tarde.
1 –
Coloque o melhor do seu esforço no Planeamento e preparação da Aquisição e
Implementação
Considere
o caso de uma grande empresa nacional, bem conhecida de todos, que passou por
dificuldades preocupantes durante a implementação de um ERP. Ao não efectuar
uma cuidada e atempada preparação do projecto, durante a sua implementação a
empresa passou por grandes dificuldades. Resultado? Troca de acusações entre
fornecedor do software e gestão de topo da organização, que nada resolveram
em relação ao descrontrolo dos stocks. Mas, mais grave ainda, foi o impacto
negativo que o sistema teve no serviço ao cliente, nas entregas e na facturação.
Resumindo, é preciso tempo, compreensão, planeamento e envolvimento para que
se fuja deste tipo de resultados.
2 –
Contrate os mais experientes consultores
Neste
mesmo caso nacional, os consultores inicialmente contratados não se revelaram
com a experiência e os conhecimentos necessários para, não só realizar a
gestão de um cliente extremamente complexo e problemático, como também não
provaram estar à altura do desafio que lhes foi colocado. A pouca ou nenhuma
experiência na implementação, aliada ao pouco tempo de análise dos
requisitos e processos de negócio da empresa, gerou um conjunto de mal
entendidos que acabaram por dar origem a falhas graves na parametrização do
software, impossibilitando-o de dar resposta às exigências dos futuros
utilizadores. Resumindo, escolha e contrate consultores com efectiva e
comprovada experiência e, muito conhecimento do seu negócio.
3 - Não
deixe os consultores sozinhos na implementação
A maior
parte dos projectos “chave-na-mão” representam um enorme risco para a
organização, uma vez que dão ao fornecedor uma tal liberdade de actuação,
que os produtos finais do seu trabalho não são muitas vezes compatíveis com
as necessidades da empresa. Se quer ter sucesso garantido na implementação de
um ERP, prepare uma equipa interna para acompanhar o projecto. Se não tiver
ninguém com o perfil adequado à gestão desta equipa interna, vá ao mercado e
procure um consultor/gestor de projectos (provedor) com provas dadas. Ele pode,
não só diminuir-lhe substancialmente o risco do projecto, mas também
contribuir significativamente para elevar o seu nível de qualidade final.
4 –
Integre a tecnologia com a estratégia de negócio
A
tecnologia não é um fim, mas tão somente uma ferramenta que o pode ajudar a
atingir as metas e objectivos a que se propôs. Desta forma, é muito importante
que seja transportada para a implementação a sua estratégia de negócio. A
implementação de um ERP só pode gerar valor se existir uma estratégia sólida
do que se pretende conseguir.
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Se
quer sucesso garantido na implementação de um ERP, prepare uma equipa interna
para acompanhar o projecto. |
5 –
Prepare a organização para a implementação e efectue a mudança, ... gerindo
a mudança
As
pessoas, a sua cultura e processos de trabalho têm que ser progressivamente
moldados a uma nova situação. Para isso, é preciso ter bem presente que todos
reagimos negativamente à mudança. Enquanto não “conhecemos” minimamente o
futuro estamos cépticos, renitentes e pouco propensos a evoluções. É preciso
eliminar progressivamente este tipo de comportamento. E isto só é possível
construindo e disponibilizando, paulatinamente, uma visão do futuro, dando
tempo a que todos interiorizem e comecem a identificar-se numa nova situação.
Se não for efectuada uma gestão adequada da mudança organizacional, o impacto
da implementação pode ser extremamente negativo. Não descure a gestão da
mudança.
6 –
Crie métricas que permitam avaliar o desempenho e não se esqueça que o seu
objectivo final é... aumentar lucros e quota de mercado (apesar de tudo, a
“bottom line” é que interessa)
A melhor
forma de motivar a organização e enquadrar o desenvolvimento dos trabalhos é
criar metas e objectivos “palpáveis”, isto é, quantificáveis. Não chega
dizer que um projecto foi um sucesso porque se chegou ao fim da implementação
e o ERP entrou em exploração. É preciso quantificar os ganhos conseguidos,
quer em relação à situação anterior, quer em relação aos principais
competidores (através de “benchmarking”). Só se a posição competitiva
melhorar com base na leitura de métricas acordadas á partida, é que se pode
dizer que a implementação foi um sucesso, fiasco, ou “não aqueceu, nem
arrefeceu”.
Resumindo,
a escolha e implementação de um ERP, não só representa um grande
investimento e risco para a organização, como também a obriga a assumir
compromissos de longo prazo. Desta forma, é extremamente importante que todas
as organizações coloquem um esforço significativo no processo de aquisição
e implementação de um ERP e que, no caso de já o terem implementado, procurem
efectuar a sua optimização de uma forma sólida e em perfeito alinhamento com
a sua estratégia de negócio.
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