Produtividade
e Complexidade
in
Semanário Económico, nº 826, 8 de Novembro de 2002
A
falta de visão traduz-se na ignorância do possível e é a maior doença do
gestor nacional. Só combatida na forma como se educa um gestor.
Com
sabemos, quer vista em termos de produto nacional bruto per capita, valor
acrescentado per capita, produção por trabalhador, ou retorno do investimento,
a produtividade em Portugal é muito baixa quando comparada com a dos nossos
parceiros comunitários. Mas, porque é tão baixa? Será que esta situação
ainda se pode imputar à falta de infra-estruturas básicas eficientes (vias de
comunicação, transportes, saúde, serviços estatais...), ou é o resultado de
falhas bem mais graves e que têm como pano de fundo as pessoas, a sua educação,
formação e preparação para utilizar as mais modernas tecnologias de informação
e para gerir ambientes organizacionais cada vez mais complexos? Será que
estamos preparados para aumentar a nossa produtividade em ambientes de
complexidade crescente?
PRODUTIVIDADE
É
um facto que não utilizamos as nossas (poucas) energias e competências na
melhoria da rentabilidade e produtividade das nossas organizações. Existem
exemplos gritantes de desperdício de recursos escassos, em que o sector estatal
leva uma dianteira folgada. Não somos bons a fazer com que os nossos recursos
trabalhem em conjunto para objectivos concretos, até porque temos muita
dificuldade em definir (e assumir) objectivos realistas. Somos levianos na
apreciação das dificuldades e maus a motivar colaboradores. Somos lentos a
decidir e a lançar iniciativas. Somos excelentes tácticos, mas medianos na
definição e prosseguimento de estratégias. Somos um país de organizações
antiquadas, onde os investimentos em tecnologias de informação se efectuam
para resolver problemas pontuais (ano 2000, Euro,...) e não estratégicos.
Somos um país a precisar de, urgentemente, passar por um período de
rejuvenescimento acelerado.
Muita
tinta é gasta a escrever sobre produtividade, e muito esforço é realizado a
efectuar comparações internacionais. Algumas das nossas mentes mais brilhantes
encontram-se a compilar dados e a comparar resultados. Aparte o valor intrínseco
desta actividade, continuamos a não “pegar de caras” os dois verdadeiros
problemas que nos afligem:
-
Com
base nos recursos disponíveis, que nível de produtividade é suposto devermos
atingir e quando?
-
Como
as mais importantes peças do puzzle são as pessoas, como podemos melhorar –
tremendamente – a utilização deste recurso?
Infelizmente,
ninguém coloca estas questões, o que faz com que ainda não tenham sido
esclarecidas. No entanto, a crescente complexidade do negócio exige que nos
tornemos obcecados com a sua resposta.
Em
relação à primeira questão, é necessário conhecer quais são as nossas
reais possibilidades. Suspeito que, com a nossa actual dotação de recursos,
deveríamos estar a ser muito mais eficientes, mas não tenho qualquer ideia de
quão melhor nos deveríamos estar a comportar. Logo, o melhor é deixarmo-nos
de comparações e focarmo-nos nas variáveis apropriadas e pela sua medição
recolher informação sobre como progredir. Mas é aqui que surge a segunda
questão e que verificamos a origem e escala do problema que temos para
resolver. Somos muito maus a maximizar o valor acrescentado e a minimizar os
custos do mais precioso dos nossos activos (depois dos clientes), os recursos
humanos. E não é porque não conseguimos avaliar o seu desempenho. Existe evidência
de que, mesmo que efectuemos rigorosas avaliações de desempenho, subsistem
graves problemas de liderança e motivação.
|

|
As
organizações devem concentrar-se na Liderança, Organização/Processos e
Gestão do Conhecimento. A elevação do nível educacional encontra-se nas
mãos do Estado, mas os empresários e executivos devem exigir qualidade. |
Como
não existem ganchos celestes que, milagrosamente, puxem as nossas organizações
para patamares mais altos de eficiência e eficácia, estas têm de optar por se
concentrar na construção de gruas. Na minha opinião, devem concentrar-se na
construção de três gruas fundamentais, Liderança, Organização/Processos
(voltamos à reengenharia) e Gestão do Conhecimento. O “aço” para a
construção destas gruas encontra-se, a um nível básico na Educação, a um nível
intermédio na Formação Técnica Especializada, a um nível superior na
qualidade dos Sistemas de Informação e a um nível estratégico na Capacidade
de Direcção e Organização em Ambientes Complexos.
COMPLEXIDADE
A
elevação do nível educacional encontra-se nas mãos do Estado, mas os empresários
e executivos devem exigir qualidade (diria mesmo que devem ser reenvindicativos).
A Formação Técnica Especializada deve ser fornecida directamente por cada
empresa e ser parte fundamental do seu Plano Estratégico. Sobre os sistemas de
informação pouco há a dizer, a não ser que são fundamentais na transformação
de informação em conhecimento e deste em decisão, e que devem estar
crescentemente presentes nos orçamentos anuais das organizações. Em relação
à Capacidade de Direcção e Organização em Ambientes Complexos, que depende
em grande medida dos três anteriores factores, podemos enquadrar melhor a
importância do tema com a nossa tentativa de resposta à seguinte questão:
Em
situações complexas a acuidade do conhecimento que obtemos, a partir da
informação que recebemos, pode fazer a diferença entre uma decisão certa e
uma completamente errada, entre um contrato benéfico e um desastre financeiro.
A informação pode definir-se como: uma “mercadoria” sem a qual não é
possível tomar racionalmente a próxima decisão. Tudo o resto é ruído, é
informação de outrém, ou minha informação relevante para
outro qualquer contexto. O único contexto relevante é que:
-
Existe
um problema ou questão que é necessário resolver/responder;
-
O
ponto de partida para a sua resolução pode ser obscuro, pouco claro ou mesmo
indefinido,
-
É
necessário clarificar antes de iniciar o trabalho,
-
São
necessários dados e informação, seguidos por várias análises (muitas vezes
profundas), que ajudem à elaboração da resposta,
-
O
resultado do trabalho deverá ser uma decisão a tomar por alguém.
Esta
metodologia, que não é mais do que um processo de inovação pura e simples, não
faz parte do dicionário da maior parte dos nossos gestores e por isso não
ajuda a clarificar a visão do futuro da sua organização. A falta de visão
traduz-se na ignorância do possível, e é a maior doença do gestor nacional.
Esta doença só pode ser combatida através de modificações drásticas na
forma como se educa um gestor. Este deve:
-
Passar
por várias organizações e ter um contacto muito estreito com os sistemas de
informação,
-
Saber
tomar medidas que criem, explorem e mantenham o Conhecimento da organização,
-
Demonstrar
os benefícios do “ouvir com atenção” e institucionalizar medidas que
permitam que todos os colaboradores coloquem questões (sem sofrer represálias),
-
Saber
criar equipas de trabalho em vez de hierarquias,
-
Saber
planear e projectar esse futuro na mente dos seus colaboradores, e
-
Saber
descansar e fazer descansar todos os elementos das suas equipas.
Penso,
pois, que só podemos melhorar a nossa produtividade e lidar eficazmente com a
crescente complexidade, se nos concentrarmos na preparação de pessoas para
dirigir e organizar equipas de trabalho em ambientes cada vez mais complexos e
exigentes. Pessoas que sejam Líderes, saibam “mover” Organizações e
explorar o seu Conhecimento. Senão, outros virão que nos dirigirão...
|