"UM
POR TODOS, TODOS POR UM"
... ou como a
colaboração é fundamental no futuro das empresas, seja qual for o sector de
actividade.
in
Semanário Económico, nº 792, 15 de Março de 2002
O título deste artigo é a famosa
frase dos “Três Mosqueteiros”. Esta é a frase que melhor sintetiza o
compromisso de colaboração entre várias entidades.
A
globalização dos mercados, as maiores exigências dos consumidores e a
crescente complexidade tecnológica dos produtos fez com que as empresas começassem
a colocar uma ênfase particular na gestão das suas parcerias.
A necessidade de gerir parcerias
surgiu de dois fenómenos que têm actuado em paralelo ainda que sejam
distintos, a “recentragem” no “core-business” e a “componentização”
dos produtos. O primeiro tem um grande impacto na Cadeia de Decisão (tema
que abordaremos num futuro artigo), enquanto o segundo influencia decisivamente
o desenvolvimento da Cadeia de Abastecimento.
“Um
por todos” na Cadeia de Abastecimento
Nesta
cadeia, a prestação competitiva de cada entidade afecta directamente os
resultados operacionais de todas as outras, uma vez que os ganhos de
produtividade reflectem-se directamente no preço final do produto.
Desta
forma, “Um por todos” pode ser o lema de uma empresa que decide encetar
projectos de Optimização de Processos. Sozinha, pensa estar a contribuir para
o bem-estar geral, ao aumentar a sua produtividade e ao reduzir os custos de
toda a cadeia. É um processo que pode encetar por decisão própria, mas cujo
impacto pode ser sentido em todos os seus parceiros de negócio.
No
entanto, esse impacto pode ser benéfico ou prejudicial para a sua Cadeia de
Abastecimento, dependendo, não só da forma como recolhe informação do
cliente e a transfere para o fornecedor, mas também da forma como os novos
processos de negócio podem ocasionar melhorias ou rupturas no negócio dos seus
fornecedores.
“Um
por todos” é uma actuação relativamente “cega”, pois a empresa toma
decisões de melhoria dos seus processos sem procurar harmonizar esses processos
com os dos outros intervenientes na Cadeia de Abastecimento. Esta não é a
melhor forma de aumentar a competitividade, pois a empresa que assim actua pode
estar a colocar em causa a sua linha de abastecimento, sofrendo posteriormente
as consequências directas e indirectas dessa actuação: falência de
fornecedores, entregas atrasadas, produtos de menor qualidade, etc.
“Todos
por um” na Cadeia de Abastecimento
Esta parte da frase representa a essência
da colaboração, e é através da sua prática que podem extrair-se os maiores
benefícios da optimização de uma Cadeia de Abastecimento. No entanto, a sua
implementação apresenta desafios significativos.
Um
primeiro desafio coloca-se logo no início, com a definição da
entidade coordenadora do projecto de optimização/integração. Esta
entidade pode ser independente de todas as partes, ou ser imposta pela entidade
da Cadeia com maior poder de negociação. No entanto, a definição clara e
explícita de quem coordena os projectos de optimização, é fundamental para
se conseguiam obter os resultados pretendidos: melhorias na qualidade do produto
e no nível de serviço a custos mais baixos.
Um
segundo desafio coloca-se ao nível da disponibilização muito rápida
de informação. Que informação deve ser recolhida, tratada e comunicada?
Que sistemas devem ser utilizados no encaminhamento dessa informação?
A
forma como se dá resposta a estas questões é muito importante para a efectiva
operacionalidade da Cadeia de Abastecimento, uma vez que a informação deve
fluir muito rapidamente ao longo da cadeia, e cada interveniente tem,
normalmente, necessidades de negócio distintas e por isso sistemas de informação
próprios e dedicados. Como harmonizar e resolver esta situação?
Hoje, um projecto de optimização da
Cadeia de Abastecimento, passa muito pela implementação de modernos sistemas
de informação que permitam tratar muita informação recolhida ao cliente
(através de um sistema CRM – Customer Relationship Management), de forma a
torná-la rapidamente disponível a todos os intervenientes numa Cadeia de
Abastecimento. Aqui os modernos softwares ERP (Enterprise Resources Planning)
aliados às aplicações específicas de Supply Chain Management podem fornecer
uma grande ajuda, senão mesmo a solução final (SAP, ORACLE, BAAN, JDEdwards,
são alguns dos possíveis candidatos a este papel).
No
entanto, a implementação de um projecto de integração
inter-organizacional coloca um terceiro e não menos importante desafio.
Exige uma mudança radical de mentalidades ao nível da gestão empresarial.
Para que o sucesso seja uma palavra normal na implementação de sistemas
colaborativos, é preciso que exista uma partilha efectiva de informação de
negócio.
Esta evolução implica que os empresários
têm que deixar de considerar a informação como um “segredo de estado”, só
útil para si e escondida de todos os seus parceiros. Se a informação for
escondida, como é possível melhorar a eficiência de toda a Cadeia, e assim
conseguir melhorar o bem-estar colectivo?
“Todos
por um” é um dos maiores desafios que se colocam ao nível do comportamento
das empresas quanto ao tratamento da sua informação. Será que conseguem
ultrapassar os traumas da célebre frase “o segredo é a alma do negócio”,
e colocar a sua informação de mercado à disposição dos parceiros?
As
empresas em que existe, já hoje, uma maior cultura de colaboração, como as do
Norte da Europa, estão em franca vantagem em relação às de países como
Portugal, em que ainda subsiste uma mentalidade extremamente protectora da
individualidade. A manutenção desta mentalidade só terá um resultado possível,
a continuação da perda de competitividade das empresas nacionais, a sua rápida
saída do mercado, e a transformação da estrutura de emprego do país.
Mas
os desafios ainda não terminaram, existe um quarto desafio. Na Cadeia de
Abastecimento é fundamental a entre-ajuda, a análise conjunta das problemáticas,
a compreensão do compromisso da empresa com o bem-estar de cada um. Mais do que
a colaboração, deve também ser promovido o espírito de solidariedade.
É preciso que todos estejam bem informados do seu papel e da sua contribuição
para o bem-estar geral.
“Todos
por um” na Cadeia de Abastecimento exige um grande esforço de negociação,
exige a construção de um espírito de colaboração, de partilha, de crítica
construtiva, mas também exige união, dedicação, e um esforço conjunto na
procura de soluções inovadoras e que permitam manter a competitividade das
nossas empresas. Só com este novo espírito será possível ultrapassar esta
crise e ganhar os grandes desafios da produtividade e da prosperidade geral.
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